Pesquisa
revela que esse sentimento é processado na mesma região cerebral que a dor
física. Saiba como controlá-lo.
Certa vez, um homem, extremamente
invejoso de seu vizinho, recebeu a visita de uma fada, que lhe ofereceu a
chance de realizar um desejo. "Você pode pedir o que quiser, desde que seu
vizinho receba o mesmo e em dobro", sentenciou. O invejoso respondeu,
então, que queria que ela lhe arrancasse um olho. Moral da história: o prazer
de ver o outro se prejudicar prevaleceu sobre qualquer vontade. É por meio
dessa fábula que a psicanalista austríaca Melanie Klein (1882-1960) definiu na
obra "Inveja e Gratidão", um dos principais estudos já feitos sobre o
tema, o comportamento de quem vive intensamente esse sentimento.
Ao mesmo tempo que o ciúme é querer
manter o que se tem e a cobiça é desejar aquilo que não lhe pertence, a inveja
é não querer que o outro tenha. O mais renegado dos sete pecados capitais é uma
emoção inerente à condição humana, por mais difícil que seja confessá-la.
Afinal, todo mundo, em algum momento da vida, já sentiu vontade de ser como
alguém. Há até um lugar no cérebro reservado para a inveja. Pela primeira vez,
uma pesquisa científica mostra onde ela e o shadenfreude - palavra alemã que dá
nome ao sentimento de prazer que o invejoso experimenta ao presenciar o
infortúnio do invejado - são processados na mente humana.
De autoria do neurocientista japonês
Hidehiko Takahashi, do Instituto Nacional de Ciência Radiológica, em Tóquio, o
estudo "Quando a sua Conquista É a minha Dor e a sua Dor É a minha
Conquista: Correlações Neurais da Inveja e do Shadenfreude foi publicado
recentemente pela prestigiada revista cientifica americana Science. Por meio de
ressonância magnética realizada em 19 voluntários (dez homens e nove mulheres),
na faixa etária dos 20 anos, foi possível identificar onde os sentimentos são
processados no cérebro. Ao sentir inveja, a região do córtex singulado anterior
é ativada.
O
interessante é notar que é nesse mesmo local que a dor física se processa.
"A inveja é uma emoção dolorosa", afirma Takahashi. O
shadenfreude, por sua vez, se estabelece no estriado ventral, exatamente onde
se processa a sensação de prazer. "O invejoso fica realizado com a
desgraça do invejado", diz o pesquisador. Durante a pesquisa, Takahashi
induziu os voluntários a imaginarem um cenário que envolvia outros três
personagens, do mesmo sexo, faixa etária e profissão que eles. Dois deles
seriam, hipoteticamente, mais capazes e inteligentes.
Dessa comparação nasce a inveja,
especialmente quando as pessoas são muito parecidas. Ou seja, é mais comum uma
mulher se incomodar com outra, da mesma faixa etária e profissão, do que com
alguém com características totalmente diferentes. "Trata-se de um
sentimento caracterizado pela sensação de inferioridade", explica o
neurocientista Takahashi. "Quando há essa sensação, é porque houve
comparação e a pessoa perdeu."
"A minha inveja se repetia em
tantos palcos quanto houvesse situações de comparação"
Roberto Birindelli, 46 anos, ator
O ator Roberto Birindelli perdeu muitas
batalhas, mas parece ter vencido a guerra. Ao longo de seus 46 anos, a inveja
sempre o perseguiu. Na escola, nutria o sentimento pelos colegas de classe que
conquistavam as garotas com facilidade. Na vida adulta, sofria quando um colega
ator conseguia um teste para o melhor papel de uma produção.
O sentimento o corroía tanto que ele
chegou a invejar o modo como uma determinada jaqueta de couro caía bem em um
conhecido. "O que me deixava mal era saber que a roupa não ficaria tão boa
em mim", confessa Birindelli. "A minha inveja se repetia em tantos
palcos quanto houvesse situações de comparação." Insatisfeito em se
projetar o tempo todo nos outros, o ator foi em busca de auto-conhecimento.
Descobriu
o eneagrama (técnica para estudo do comportamento humano), fez terapia e
mergulhou na meditação. "Percebi que o problema era comigo",
reconhece. "Sou inseguro em relação à maneira como a sociedade me
vê." Amparado, aprendeu a lidar com a questão. "Hoje em dia, sempre
que vou sentir inveja de alguém, me pergunto: ser como ele é melhor do que ser
quem sou?", explica Birindelli, que está no ar na novela "Poder
Paralelo", da Record. Além da insegurança, a baixa autoestima, o
sentimento de incapacidade e a sensação de injustiça são características comuns
aos invejosos."Pessoas bem resolvidas e esclarecidas tendem a ter
menos inveja", diz o psiquiatra José Thomé, da Associação Brasileira de
Psiquiatria.
Mas por que há pessoas muito invejosas
e outras que passam a vida quase sem sentir essa emoção? A psicóloga Sueli
Damergian, professora da Universidade de São Paulo (USP), acredita que o
segredo está em não ultrapassar a linha da afeição. "A inveja é sempre
fruto da admiração", diz. "Se ela ficar restrita a isso, pode
funcionar como impulso para o desenvolvimento." O problema é quando essa
barreira é rompida. "Se o impulso destrutivo for muito forte, o invejoso
passa a viver a vida do outro e isso pode ser danoso tanto para ele quanto para
o invejado."
EU QUERO Isabela e Pedro manifestam a
inveja por meio da cobiça
Em
casos patológicos, que, segundo especialistas, são mais comuns do que se
imagina, quem sofre do mal é capaz de caluniar, perseguir, e, em casos mais
extremos, desejar a morte do invejado. Há, também, os que somatizam. Nessas
situações, podem apresentar quadro depressivo, autodestrutivo, agressividade e
tendências suicidas. O psiquiatra Thomé acredita que, salvo os casos
patológicos, as pessoas têm livre-arbítrio para viver ou eliminar a
inveja. "É um sentimento muito primitivo, que deve ser trabalhado."
Entre a inveja destrutiva e a
construtiva, a artista plástica Roberta Martinho, 34 anos, ficou com a segunda.
Garota curiosa, ela teve consciência do sentimento ainda na pré-adolescência.
Queria ser como o Visconde de Sabugosa, personagem de Monteiro Lobato, em
"O Sítio do Pica-Pau Amarelo" - é recorrente a inveja de personagens
fictícios ou pessoas distantes do convívio, como as celebridades. Seu segundo
contato com a emoção, dessa vez mais realista, foi por meio da professora de
história. "Invejava a cultura, a erudição e a inteligência dos dois",
diz Roberta. Numa versão light do sentimento, ela nem chegou a desejar o
infortúnio de seus invejados. "Queria ser como eles, mas não me sentia
inferiorizada nem injustiçada", diz.
A maneira que encontrou para lidar com
a questão foi mergulhar nos livros. "Ler muito, estudar, pesquisar",
diz. Quando a pessoa consegue fazer com que o sentimento, em tese negativo,
impulsione ações positivas, ela o transforma no que os especialistas chamam de
inveja criativa. "Inveja, ciúme e raiva são tão importantes quanto a
visão, a sexualidade e a alimentação", defende o psiquiatra Carlos
Byington. "Todos eles trazem informações importantes para formar e
transformar a própria identidade." Hoje, Roberta é frequentadora assídua
de biblioteca e museu. E diz não sentir mais inveja de nada, nem de ninguém.
"Descobri que as pessoas são únicas e que não devemos seguir padrões
alheios."
Comum em toda a sorte de relações
humanas, a inveja está presente até mesmo dentro de casa. As irmãs Júlia e
Lídia Loyola, 25 e 23 anos, respectivamente, e suas meias-irmãs Fernanda e
Gabriela Fernandes, 17 e 13, moram juntas e compartilham da incômoda emoção.
Filhas da mesma mãe e de pais diferentes, estão sempre se comparando e
lamentando aquilo que não são.
As mais velhas invejam a vida cheia de
oportunidades das mais novas. "Aos 15 anos, quando precisava de dinheiro,
trabalhava", diz Júlia. "A Fê não precisa disso." Fernanda
reconhece. "Não fico tripudiando, mas reconheço que me sinto recompensada
por ter vantagens em relação às minhas irmãs mais velhas, apesar de elas
estudarem tanto", diz. "Ao mesmo tempo, queria ser como elas: tirar
boas notas e não ficar de castigo."
"Invejava a cultura, a erudição e
a inteligência dos dois"
Roberta Martinho, 34 anos, sobre a
ex-professora de história e o personagem Visconde de Sabugosa, de Monteiro
Lobato
O
ambiente de trabalho, por sua vez, também é terreno fértil para os invejosos. Uma pesquisa das universidades de Warwick e
Oxford, na Inglaterra, mostra que nem sempre se inveja a maneira de ser do
rival, mas suas posses. No experimento, os entrevistados poderiam ganhar ou
"queimar" o dinheiro do concorrente, sob o custo de perder parte de
sua verba - 62% dos participantes escolheram se voltar contra o outro. Segundo
a psicóloga Glaura Maria Verdiani, autora da tese de mestrado "Um Estudo
sobre a Inveja no Ambiente Organizacional", pelo Centro Universitário de
Araraquara (SP), é provável que esse sentimento esteja impregnado em 100% das
relações profissionais.
"Em uma equipe de 30 pessoas, é
possível que todos invejem alguém, em algum nível", revela. A emoção pode
ter origem em qualquer um e partir para diferentes direções. Acontece entre
pessoas do mesmo cargo, funcionários de funções inferiores e superiores.
"Há chefes invejosos de seus subordinados, que são mais jovens, mais
dispostos e, muitas vezes, mais talentosos", diz Sueli.
"O ex-marido da minha colega me disse
que ela tinha ódio mortal de mim e queria me destruir"
Claudia Neves, designer, 28 anos
Aos 28 anos, a designer Claudia Neves
foi vítima da inveja em seu local de trabalho. Até seis meses atrás, ela era a
única funcionária entre vários homens do departamento em que trabalhava, numa
agência de publicidade em São Paulo. Sua vida profissional virou de pernas para
o ar com a chegada de outra garota, da mesma idade, que passou a dar expediente
numa função com remuneração menor. No início, as duas se davam bem - ao menos
aparentemente. Até que a nova colega passou a evitá-la e agir de maneira
estranha
.
EM FAMÍLIA Filhas de pais diferentes,
as irmãs Júlia, Fernanda e Gabriela vivem se comparando
"Ela não fazia o tipo feminina e,
de repente, começou a me pedir dicas de maquiagem", conta Claudia. Além
disso, mais gordinha, passou a se preocupar com a quantidade de calorias que
ingeria. "Essa neurose começou depois que os meninos compararam o corpo
dela com o meu", diz. Com o tempo, o melhor amigo de Claudia se afastou. E
seu supervisor passou a implicar com seu trabalho.
A designer desconfia que foi vítima de
calúnias. "Certa vez, meu chefe foi grosseiro comigo", conta.
"Nessa hora, pude ver no rosto dela que estava rindo por dentro."
Triste com a situação, Claudia pediu para ser demitida. "O ex-marido dela
me disse que ela tinha ódio mortal de mim e queria me destruir", conta.
Apesar da atitude drástica que teve de tomar, ela não acredita que a colega
tenha saído vitoriosa. "Ela conseguiu me eliminar, mas estou muito feliz
fora de lá", afirma.
Em novembro passado, nos Estados
Unidos, o ex-âncora de telejornal Larry Mendte, 51 anos, além de demitido, foi
condenado a pagar uma multa de US$ 5 mil (R$ 10,1 mil) e a prestar 250 horas de
serviços comunitários por violar o e-mail de sua colega de bancada, Alycia
Lane, 36 anos. Por dois anos, Mendte enviou mensagens se fazendo passar por ela
para veículos de imprensa e colegas de trabalho. Durante o caso, admitiu ter
inveja por causa do salário anual de US$ 780 mil (R$ 1,6 milhão) de Alycia.
"O meu papel na emissora estava sendo reduzido quando ela me falou que era
a nova estrela", disse, à época.
Assim
como os demais sentimentos, a inveja vem de berço. Segundo Melanie Klein, até
mesmo os bebês nutrem esse sentimento. Eles invejam o seio materno, capaz de
alimentá-los e confortá-los. A emoção, no entanto, começa a se tornar
mais visível na primeira infância e se manifesta na forma de cobiça. Pedro,
5 anos, e Isabela, 4, são primos e estudam juntos. "Eles disputam tudo: a
atenção da família, dos professores, dos colegas", diz a educadora
Caroline de Oliveira, 32 anos, mãe de Pedro. "Isabela é mais de cobiçar os
brinquedos do primo, e ele, por sua vez, disputa a atenção das pessoas quando
ela se destaca." Para lidar com a atenção, a mãe explica para o filho que
não é possível ter tudo o tempo todo. "Tento prepará- lo para lidar com
essa sensação, que estará sempre presente."
A psicóloga Sueli, da USP, assina em
baixo. "É importante eliminar os sentimentos de inferioridade e baixa
autoestima e mostrar o outro lado", explica. "Se a pessoa não é boa
em algo, certamente será em outra coisa." Afinal de contas, a melhor
maneira de domar o sentimento da inveja é, assim como fez o ator Birindelli,
identificá-lo e aprender a lidar com ele. Graças a seu esforço, ele hoje
circula satisfeito com a jaqueta de couro que tanto invejou no outro e,
finalmente, comprou.
Fonte: Revista Isto é - Matéria de: Claudia Jordão e Carina Rabelo








Nenhum comentário:
Postar um comentário